domingo, 29 de maio de 2005

Eleições: Decidem os emigrantes (mas nom todos)

Nas últimas semanas, diversas sondagens prenunciam a possível perda do governo por parte do Partido Popular ou, polo menos, a perda da maioria absoluta no Parlamento galego (36 assentos para o PP dava a sondagem de La Voz de Galicia e entre 36 e 39 Galicia Hoxe e La Región).


Acontece que nengumha destas sondagens leva em conta o voto de milhares de galegos e galegas que formam parte do censo de residentes ausentes (CERA), o chamado voto emigrante. Ainda que a Voz advertia que poderiam decidir até 2 deputados.

Nesta convocatória eleitoral o voto emigrante é constituído por pouco mais de 300 mil eleitores, o que equivale aos 13% dos recenseados na Galiza e representa 11,6% do corpo eleitoral total.

Levando em conta que nos últimos anos aumenta a percentagem de voto emigrante e que neste o apoio ao PP é superior ao voto interior, concluirá-se que nesta ocasiom é mui povável que se repita a situaçom de 1997, em que o escrutínio do voto emigrante modificou o reparto de escanos inicial do voto residente, a favor do PP e em detrimento do BNG.

Poderíamos encontrar-nos, portanto, com que a maioria de votantes residentes na Galiza deixasse o PP sem maioria absoluta, e cidadãos que nom moram na Galiza desde há várias décadas, ou que nem sequer conhecem o país (filhos e netos de emigrantes), e que, como já dixemos e convém repetir, nom votam coas mesmas garantias democráticas que os residentes, restituam essa maioria absoluta ao PP.

Ora, nom todos os emigrantes tém voto. Dentre os galegos residentes noutras comunidades autónomas do Estado Espanhol (mais de 500.000 em 2001), aqueles que estamos empadroados e recenseados no nosso actual lugar de residência, e nom na Galiza, nom podemos participar nestas eleições.

É certo que a participaçom destes emigrantes nas eleições galegas levantaria problemas técnicos, mas com certeza seria possível habilitar fórmulas que o permitissem, mesmo que fosse a criaçom de um terceiro censo, além do de residentes e o CERA.

Ao PP, decerto, nom interessará a possível influência desse voto, visto que a emigraçom durante o período de governo de Manuel Fraga tivo como destino maioritário outras comunidades do Estado e foi nutrida nomeadamente por gente nova, e visto também que entre as franjas etárias mais novas é onde menor apoio eleitoral tem esse partido, como confirmam as últimas sondagens da Voz e do Correo. Mas parece que tampouco o BNG nem o PSOE atendem a esta discriminaçom, no que di respeito ao exercício do voto, dos emigrantes galegos a outras comunidades autónomas.

O certo é que, se se quiger realmente fomentar a participaçom eleitoral dos emigrantes galegos, em igualdade e sem discriminações, deveria defender-se o direito de voto destes emigrantes no resto do Estado nos processos eleitorais em que participem os emigrantes de fora do Estado.

Caberia também a possibilidade que exercessen o voto somente os residentes, nativos ou imigrantes, evitando assi a excessiva influência que pode chegar a ter o voto de pessoas que nom residem no país e que se estabelecêrom noutros. Cremos que assi acontece, polo menos, na Irlanda, outro país em que a emigraçom, como no nosso, foi mui elevada.

Concelhos em que o CERA representa
mais de 40% do censo total:



Percentagem do CERA sobre o censo total
nas 7 cidades galegas:


Fonte: INE

sexta-feira, 27 de maio de 2005

Elementos contra a mudança

Para além dos mais conhecidos instrumentos de que o PP usa e abusa para evitar que as cousas, politicamente falando, mudem a partir do próximo 19 de Junho na Galiza, há outros menos conhecidos como tais, mas que também o som, como o voto emigrante, tradicionalmente muito mais favorável ao PP do que o voto interior, e que carece das garantias deste (pola conivência de PP e PSOE), a divisom da esquerda extraparlamentar (ao que se poderia unir o seu oportunismo eleitoralista), e Paco Vázquez.

Hoje mesmo, o presidente da Cámara Municipal da Corunha mostrou-se, em entrevista à estaçom de rádio espanhola Cadena SER, claramente desfavorável a um pacto entre o BNG e o PSOE. Quando Antón Losada aludiu à boa experiência de pacto entre estes dous partidos na Deputaçom da Corunha, sem dúvida tentando mostrar a possibilidade dum entendimento que garanta a mudança, Paco Vázquez respondeu, notavelmente amolado, que el nom tinha nada a ver coa Deputaçom da Corunha e que a sua boa experiência de pacto fora co PP quando estivo em minoria no concelho e, por se isso fosse pouco, acrescentou que a boa experiência de pacto entre BNG e PSOE na Deputaçom corunhesa fica compensada coa má experiência de Vigo.

Mostrou assi o alcaide corunhês clara preferência por um pacto PP-PSOE ou ainda entre o PSOE e umha posível cisom do PP posterior à perda da maioria absoluta, se é que nom a mantém, coa ajuda inestimável das suas declarações.


quarta-feira, 25 de maio de 2005

O Quéchua e o Galego. Línguas, nomes e fronteiras



No domingo passado assistim a umha juntança da associaçom Rumiñahui, de que fum membro fundador junto com meu irmão André, que foi o seu primeiro presidente, e a minha amiga Dora Aguirre, actual presidente e a sua verdadeira alma mater.

A reuniom tratava sobre diferentes trabalhos para o fomento da leitura entre a populaçom imigrante, no quadro de um convénio assinado co Ministério de Cultura espanhol.

Como o meu companheiro Joel propunha organizar, como parte do projecto de obradoiro literário em Madrid, um prémio literário aberto a imigrantes de todas as origens, eu defendim que o prémio se estendesse ao ámbito estatal e que se admitissem portanto as línguas das quatro comunidades lingüísticas que abrange o Estado espanhol (galego-português, castelhano, catalám e basco). Esta proposta nom foi bem acolhida, mas originou um debate sobre quais as línguas admissíveis, no sentido de poder admitir-se, além do castelhano, o quéchua (e acaso outras línguas do Equador) porquanto seria mais fácil para Rumiñahui conseguir que os jurados do prémio dominassem essas línguas, ou admitir a escrita na língua nativa dos imigrantes, qualquer que esta for, mas acompanhada de traduçom ao castelhano, opçom adoptada por enquanto.

Durante o debate eu empreguei indistintamente as formas "quéchua" e "quíchua", pois tinha entendido que ambas se usavam para denominar a mesma língua. Num dado momento, umha companheira da associaçom, Míriam, dixo que nom eram a mesma cousa: o quíchua é de Equador e o quéchua de Peru e só se admitiria o quíchua, nom o quéchua.

Perguntamos entom o Joel e eu: mas som a mesma língua ou nom? Som diferentes, respondiam. Uns dizem quéchua e outros quíchua, onde uns pronunciam "e" os outros pronunciam "i", as palavras som mui parecidas mas podem soar diferente ou ter significados diferentes, ainda que próximos.

Afinal, parece claro que se trata de outro caso de trastornos lingüísticos causados por fronteiras políticas, como o nosso galego-português ou o catalám-valenciano.

E, como nos outros dous casos citados, nas constituições do Peru e do Equador esta língua é citada com nomes diferentes, se bem que somente muda umha vogal.



Mapa dos dialectos do quéchua-quíchua (runasimi, na língua original)

domingo, 22 de maio de 2005

Programas

Continuamos em pré-campanha.

O BNG apresentou onte, 21 de maio, o seu Programa de Governo, que nesse mesmo dia passava a estar disponível no seu web, em formato PDF (de livre distribuiçom, pois o programa necessário para abrir documentos PDF é gratuito: Adobe Reader). No seu exaustivo Programa de Governo, de 271 páginas, o BNG explica o negativo resultado das políticas do PP, a situaçom do país, e as medidas que propom para mudar a situaçom. Esperamos que o BNG edite logo um Programa Eleitoral, resumindo as principais medidas do Programa de Governo. Por enquanto dispomos desta sumária apresentaçom.

Hoje foi o PSdG-PSOE quem apresentou o seu Programa. No entanto, só disponibilizou um breve documento de duas páginas em formato DOC, nom gratuito senom privado e comercial, propriedade da empresa Microsoft, do bilionário estadunidense Bill Gates. O documento condensa 30 medidas do Programa Eleitoral.

Por enquanto fai-se difícil comparar ambos os documentos, mas numha primeira olhada chama a atençom o facto de coincidirem em começar polo compromisso de avançar no autogoverno através dum novo Estatuto de Autonomia. Encontram-se também algumhas medidas similares no que diz respeito à política sócio-económica e atendem também ambos documentos às demandas sociais favoráveis a um desenvolvimento sustentável, medidas ambientais, e melhoria dos serviços públicos.

Mas observamos nas 30 medidas de governo propostas polo PSdG umha desatençom aos problemas culturais e linguistico da Galiza. Somente encontramos, no aspecto cultural, a criaçom do Instituto Rosalia de Castro como instrumento para veicular a presença de Galiza no exterior (medida 17), e a promoçom do ensino lingüístico do inglês (medida 14 do PSdG, vid. pp. 83 e 93 do BNG onde se fala de "umha língua estrangeira" sem conceder porém preferência ao inglês). Nada aparece, portanto, sobre a necessidade de avançar na normalizaçom lingüística (um dos aspectos em que mais dano fizérom os governos de Fraga), ou sobre o direito de receber o ensino em galego. Ainda que neste último aspecto o BNG só se compromete à "impartición, como mínimo, dun 50 % das materias en lingua galega", a diferença de tratamento do aspecto cultural e lingüístico é considerável, umha vez que o BNG dedica um dos oito capítulos do Programa a este aspecto (Capítulo IV, pp. 86-124).

Outra diferença salientável numha primeira olhada é o tratamento de outros direitos cívicos . O BNG intitula o capítulo VII do seu programa "Mais Democracia e Liberdades" com atençom à regeneraçom ética e democrática, código ético e luita contra a corrupçom, transparência, limpeza nas contrataçom pública, objectividade na concessom de subvenções e ajudas públicas, impulsionamento da participaçom cidadã, e até propom a eliminaçom de publicidade institucional e a limitaçom da eleiçom do Presidente da Junta a dous mandatos consecutivos (p. 250).

Na secçom dedicada ao avanço dos direitos cívicos compromete-se a garantir a igualdade de todas as relações afectivas e a liberdade de opçom sexual, e a elaborar umha Lei de Parelhas de Feito. E na secçom III.7, "Un governo comprometido coa igualdade", constam medidas para fomentar a igualdade de género, como a criaçom dumha Comissom Interdepartamental para a Igualdade ou a elaboraçom dumha Lei Galega Integral para a Igualdade e para os Dereitos das Mulleres. Julgamos que estes aspectos ficárom desatendidos nas 30 medidas avançadas polo PSdG-PSOE.

quarta-feira, 18 de maio de 2005

A norma e o erro

Entre as mudanças anunciadas quando a Real Academia Galega (RAG) aprovou a proposta de modificaçom da sua normativa lingüística, em 12 de julho de 2003, figurava com freqüência a da eliminaçom do uso obrigatório da chamada "segunda forma do artigo", contestada por amplos sectores em prol da normalizaçom do galego, nomeadamente pola ASPG e a AGAL (veja-se o seu Estudo Crítico, pp. 98-100).

Na página do Conselho da Cultura Galega encontra-se um documento com todas as mudanças, em que se di que o alomorfe
«–lo pasa a ser de uso obrigatorio só despois da preposición por e do adverbio u. Nos demais casos a súa representación é facultativa. No texto das Normas só se emprega nos casos en que é obrigado.»

Ainda que na realidade o uso facultativo da "segunda forma do artigo" nom era umha novidade, pois já estava na redacçom das normas de 1982, augurava-se coa mudança normativa o uso preferente das formas sem assimilaçom.

Quase dous anos depois, o uso da "segunda forma do artigo" continua a ser abundante nos escritos redigidos segundo as normas da RAG.

Na página 81 do seu recomendável livro Sócio-Didáctica Lingüística (1994), a professora Elvira Souto refere umha experiência realizada num grupo de 73 alunos de primeiro curso da Escola Universitária de Formaçom do Professorado de ensino primário da Universidade da Corunha a quem foi mostrado o texto "TÓDALA PRADEIRA GALEGA" pedindo-se que indicassem o erro que continha a frase. O resultado foi que apenas 6 assinalarom a óbvia incorrecçom da forma *tódala, enquanto que 43 declarárom nom ser capazes de identificar o erro e os 24 restantes corrigírom pradeira para prado.

Fagamos agora a prova de procurar no buscador Google ocorrências das formas incorrectas *tódolo ou *tódala em páginas recentes.

Para limitar a procura a páginas em galego-português e nom noutras línguas em que pudesse ocorrer essa palavra, procuraremos também algumhas das mais comuns em galego-português, como as contracções pola, polo ou do, ou o advérbio de negaçom, escrito em norma RAG, non. Para que se nos mostrem documentos recentes, acrescentamos o algarismo do ano em curso. Finalmente, retiramos o filtro para que nom oculte mais de um resultado no mesmo servidor:

tódala OR tódolo 2005 pola OR polo OR do OR non

O resultado som cerca de 500 páginas, entre as que pode haver algumha em espanhol ou noutro idioma, mas facilmente comprovamos que quase todas estám na norma RAG.

Se retiramos o ano, aparecem mais de 3.500 páginas que contém formas como "tódala noite" (usc.es) "tódala información" (uvigo.es) ou "tódala militancia" (esquerdaunida.org). Webs como os das Universidades da Corunha e de Vigo, o Igape, o Valedor do Povo, Vigo Hoxe, Galicia Dixital e inclusive o mesmíssimo web da Junta de Galiza contém várias páginas coas formas erradas *tódolo ou *tódala.

Fica claro que algumhas normas induzem ao erro.

quinta-feira, 12 de maio de 2005

Blogue, Blog ou Blo?

Dias atrás, o Todo Nada, que hoje está inacessível por problemas em Blogsome, falava do blo de Quin (Anxo Quintana). Se procuramos no Google "o blo" em páginas escritas em galego-português, veremos que esta forma é empregada, polo menos, também no Brasil e até com mais abundáncia de exemplos que na Galiza. No entanto, som poucos os exemplos deste uso na nossa língua, e a maioria dos casos ocorrem em contextos em que se pretende acentuar um registro mui coloquial ou mesmo vulgar.

Blog, a forma original em inglês, é a mais usada em galego, com grande avantagem sobre a forma adaptada blogue.

Nom sei se o tempo irá a favor da adaptaçom ou da manutençom da forma inglesa original. Suponho que a globalizaçom crescente favorece a importaçom directa de léxico inglês, sem adaptações, mas as tendências internas da língua trabalharám teimudamente a favor da estabilizaçom e portanto da adaptaçom.

Por enquanto, cito aqui um trecho da página 350 da magnífica Nova Gramática para a Aprendizaxe da Língua, editada por Via Láctea em 1988, mantendo a ortografia original:
«21.- Adaptación de voces estranxeiras (e onomatopeicas):

Algunhas palabras estranxeiras e onomatopeicas xa familiares entre nós recebem unha vogal de apoio (normalmente un e) para evitar grupos consonánticos ou, sobretodo, consoantes finais inabituais ou impronunciábeis no noso idioma:
  • - be:
clube, esnobe, pube, Magrebe
  • - fe:
bife, golfe, pufe, xerife; Cardife, Rife
  • - gue:
aicebergue/icebergue, buldogue, dogue, pingue-pongue, ziguezague; Béringue, Danzigue»
... e blogue, digo eu.

quinta-feira, 5 de maio de 2005

Êxodo e importaçom

Leio no Galicia Hoxe que um assessor japonês da Junta propujo onte que a Galiza imite o exemplo de Irlanda e 'convide' com incentivos moços e moças de outros países da UE para que se estabeleçam na Galiza de modo a renovar assi umha populaçom tam envelhecida.

E pergunto-me eu se o senhor assesor foi informado pola Junta disto.