quarta-feira, 21 de abril de 2010

Entre Galiza e Espanha

(...) Fez muito bem o Brasil em estabelecer um acordo ortográfico que unifica a língua, pois se há 190 milhões de brasileiros, há outros tantos [sic] milhões de falantes do português em lugares como Angola, Moçambique, Macau ou Portugal mesmo, totalizando um mercado linguístico imenso. Vejo como uma boa oportunidade o Brasil globalizar suas publicações não só para o mundo que fala português, mas estendendo também ao mundo que fala espanhol. Se temos alguma dificuldade para entender o que vocês falam, não temos para ler o que vocês escrevem. E há uma cultura em comum. Sempre digo que Portugal não se separou da Espanha, somente da Galícia. E fez bem (ri).
(José Luís Cebrián, entrevistado n'O Estado de São Paulo, 17-04-2010)

terça-feira, 20 de abril de 2010

A falácia da tendência ao bilingüismo na Galiza

Praticamente todos os meios que informárom sobre os dados de uso e conhecimento do Galego de 2008 recentemente publicados polo IGE salientavam o "aumento do bilingüismo" ou da "tendência ao bilingüismo", baseando-se na comparaçom entre 2001 e 2008 dos relativos à língua usada habitualmente.

Mas afirmar hoje que a tendência nos comportamentos lingüísticos na Galiza é ao bilingüismo, entendendo por tal o uso habitual de ambas as línguas é totalmente falso. A tendência, devido ao nível de conculaçom dos direitos lingüísticos galegos pola imposiçom maciça do Castelhano, nom pode ser outra que ao monolingüismo nessa língua, ao abandono (mais ou menos conflivo) do Galego, e posteriormente ao seu desconhecimento e incapacidade ou incompetência para usá-lo.

Isto fica reflectido nas tendências observáveis na Galiza urbana, que é a que marca o passo que depois seguirám as vilas e mais tarde o rural. Utilizando os dados das sete cidades galegas em conjunto e homologando as opções "mais galego que castelhano" e "mais castelhano que galego" de 2008 à opçom "ambas" do recenseamento municipal de 2001 (que constitui os dados que o IGE atribui ao 2003), eis a comparativa entre 2001 e 2008, que reflecte o aumento do monolingüismo que já se verificava na comparativa por cidades publicada hai dias.







Obviamente, a mudança significativa nom está na tendência ao bilingüismo.

Mas hai ainda outro dado interessante que nega a suposta tendência ao bilingüismo. O bilingüismo consiste na capacidade de compreender e usar duas línguas e os dados publicados polo IGE mostram factores que estabelecem umha tendência à diminuiçom do bilingüismo na Galiza, ao produzir-se, entre 2001 e 2008, um aumento das pessoas que afirmam nom saber falar Galego (de 1,80% para 3,13%) e dos que dim compreendê-lo pouco ou nada (de 2,79% para 5,21%)

Obviamente, esta tendência é maior nas cidades, havendo incluso algumha em que a percentagem de pessoas que dim nom saber falar Galego é similar à de monolíngües em Galego. Em Vigo 6,85% afirmam nom saber falar Galego e outros 18,16% dim sabê-lo pouco face aos 7,09% que dim falá-lo sempre (mas que Galego poderám usar ao topar-se com um desses 25,01 % que nada ou pouco sabem del?). 

O monolingüismo em Galego nom compete já nas cidades cos níveis do monolingüismo em Castelhano, mas cos da ostentaçom da ignoráncia do Galego, ignoráncia que a minoria galegofóbica que o governo Feijóo alenta pretende converter num valor social na Galiza de hoje, em detrimento dos direitos lingüísticos galegos, da subsistência da língua própria de Galiza e do bilingüismo com que tanto enchem a boca, mas na realidade desprezam.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

A imposiçom do castelhano na Galiza urbana

Merecem muita atençom os dados de conhecimento e uso do Galego correspondentes ao inquérito de condições de vida das famílias de 2008, publicados onte polo IGE. Nomeadamente, na sua comparativa com os anteriores dados publicados em 2003, que na realidade nom som dados de 2003 pois correspondem ao recenseamento de populaçom e vivendas de 2001.

Com essa comparativa corrobora-se o que já comprovamos no dia a dia: a maciça imposiçom da língua de Castela em praticamente todos os ámbitos da vida social das urbes galegas está a acarretar a drástica diminuiçom do monolingüísmo em Galego (na maioria dos casos passa em 2008 a menos da metade) e o correspondente aumento do monolingüismo em Castelhano (repare-se no assustador caso de Vigo, berço da organizaçom galegofóbica Galicia Bilíngüe).

A populaçom galega está a optar de forma massiva por abandonar a língua própria do país em vez de contestar a imposiçom do Castelhano, e  isto manifesta-se mais claramente ali onde a imposiçom do Castelhano é mais forte: no ámbito urbano. 

Veja-se a comparativa das percentagens de uso habitual exclusivo da língua própria de Galiza e a língua de Castela nas sete cidades:





quinta-feira, 15 de abril de 2010

A imposiçom do castelhano em Galiza

Os últimos dados publicados hoje mesmo polo Instituto Galego de Estatística mostram como avançou a imposiçom do castelhano na Galiza entre os anos 2003* e 2008:


Fonte: IGE


*correcçom: os dados que o IGE atribui ao ano 2003 correspondem na realidade do recenseamento municipal de 2001.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

A verdade e o real na era digital

Reparo na estranha e novidosa relaçom coa verdade ou coa realidade que se reflecte nalguns dos melhores filmes dos últimos meses: Madeo (Joon-Ho Bong, 2009), Shutter Island (Martin Scorsese, 2010) e The Ghost Writer (Roman Polanski, 2010). Talvez o que reflectem som mudanças da nossa forma de relacionar-nos coa verdade ou co real.

Nos três filmes a personagem principal inicia umha investigaçom para conhecer a verdade e nos três o resultado é fatal para si próprio ou para os seus propósitos iniciais. Esta estrutura é paralela ao protótipo da tragédia grega clássica: o herói segue um destino que o leva à sua perdiçom; concretamente co exemplo de Édipo Rei, de Sófocles, em que a própria personagem é a que inicia a investigaçom e a que se vê impulsada a continuá-la apesar de dirigir-se assi à sua autodestruiçom.

O que é novidoso nestes três filmes é que em todos eles a verdade, depois de ser inconvenientemente descoberta polo protagonista, acabará para este ou para o seu mundo oculta, ignorada ou apagada.

Enquanto que no modelo clássico  a verdade, ao ser descoberta, impera e impom-se coa sua força contundente tanto para o protagonista como para o seu mundo, no desfecho destas três novas tragédias cinematográficas, ainda que a verdade poda ter conseqüências, ao final, de umha forma ou de outra, produze-se um retorno à situaçom prévia à sua descoberta.

No filme de Polanski a verdade finalmente fica oculta para o mundo e para a história, co qual propom a que o conhecimento da verdade histórica é, ou pode ser, inalcançável, e no de Scorsese, num final no que se podem aventurar conseqüências para a psiquiatria (em estado de guerra, segundo a personagem de Ben Kingsley) equivalentes aos que tinha para a história o de The Ghost Writer, o protagonista opta, à luz da sua última frase, por apagar a verdade que finalmente acabara por encarar.

Nesses dous filmes a descoberta da verdade continua tendo conseqüências fatais para os protagonistas, como na obra de Sófocles, enquanto que em Madeo o desfecho segue o modelo de Eurípides, com peripécias narrativas equivalentes na suas conseqüências à intervençom dum deux ex machina, mas também aqui a verdade fica oculta: só a protagonista chegou a conhecê-la e, por um segredo mecanismo curativo, poderia apagar as conseqüências negativas que esse conhecimento tivo para ela.

Também no filme de maior êxito de bilheteira do último ano, Avatar (James Cameron, 2009), existia umha fuga do real polo protagonista, que mesmo abandona o seu corpo humano para integrar-se num avatar e ficar no mundo fantástico dos na'vi. Tanto na crítica análise de Slavoj Žižek como na positiva de Daniel Mendelsohn, Avatar estaria a propor a opçom pola fantasia e o abandono ou a desconsideraçom do real.

Estamos mudando a nossa visom do real ou da verdade? ou talvez do seu papel e das suas conseqüências?