sexta-feira, 9 de abril de 2010

A verdade e o real na era digital

Reparo na estranha e novidosa relaçom coa verdade ou coa realidade que se reflecte nalguns dos melhores filmes dos últimos meses: Madeo (Joon-Ho Bong, 2009), Shutter Island (Martin Scorsese, 2010) e The Ghost Writer (Roman Polanski, 2010). Talvez o que reflectem som mudanças da nossa forma de relacionar-nos coa verdade ou co real.

Nos três filmes a personagem principal inicia umha investigaçom para conhecer a verdade e nos três o resultado é fatal para si próprio ou para os seus propósitos iniciais. Esta estrutura é paralela ao protótipo da tragédia grega clássica: o herói segue um destino que o leva à sua perdiçom; concretamente co exemplo de Édipo Rei, de Sófocles, em que a própria personagem é a que inicia a investigaçom e a que se vê impulsada a continuá-la apesar de dirigir-se assi à sua autodestruiçom.

O que é novidoso nestes três filmes é que em todos eles a verdade, depois de ser inconvenientemente descoberta polo protagonista, acabará para este ou para o seu mundo oculta, ignorada ou apagada.

Enquanto que no modelo clássico  a verdade, ao ser descoberta, impera e impom-se coa sua força contundente tanto para o protagonista como para o seu mundo, no desfecho destas três novas tragédias cinematográficas, ainda que a verdade poda ter conseqüências, ao final, de umha forma ou de outra, produze-se um retorno à situaçom prévia à sua descoberta.

No filme de Polanski a verdade finalmente fica oculta para o mundo e para a história, co qual propom a que o conhecimento da verdade histórica é, ou pode ser, inalcançável, e no de Scorsese, num final no que se podem aventurar conseqüências para a psiquiatria (em estado de guerra, segundo a personagem de Ben Kingsley) equivalentes aos que tinha para a história o de The Ghost Writer, o protagonista opta, à luz da sua última frase, por apagar a verdade que finalmente acabara por encarar.

Nesses dous filmes a descoberta da verdade continua tendo conseqüências fatais para os protagonistas, como na obra de Sófocles, enquanto que em Madeo o desfecho segue o modelo de Eurípides, com peripécias narrativas equivalentes na suas conseqüências à intervençom dum deux ex machina, mas também aqui a verdade fica oculta: só a protagonista chegou a conhecê-la e, por um segredo mecanismo curativo, poderia apagar as conseqüências negativas que esse conhecimento tivo para ela.

Também no filme de maior êxito de bilheteira do último ano, Avatar (James Cameron, 2009), existia umha fuga do real polo protagonista, que mesmo abandona o seu corpo humano para integrar-se num avatar e ficar no mundo fantástico dos na'vi. Tanto na crítica análise de Slavoj Žižek como na positiva de Daniel Mendelsohn, Avatar estaria a propor a opçom pola fantasia e o abandono ou a desconsideraçom do real.

Estamos mudando a nossa visom do real ou da verdade? ou talvez do seu papel e das suas conseqüências?

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